PIOR É IMPOSSÍVEL…?

12 February, 2007

Às vezes acontecem coisas ruins. Tão ruins que costuma-se achar que se chegou ao fundo do poço. E então, para grande espanto do pobre desafortunado, descobre-se que o fundo do poço tem porão.

Então você respira fundo, levanta a cabeça e faz força para enxergar a luz no fim do túnel. Que existe mesmo: é um trem desembestado que vem na direção oposta. E você só percebe isso quando está empastelado contra os trilhos, depois que todos os cinqüenta vagões cheios de toneladas de ferro passaram por cima de você.

O derradeiro pensamento positivo é sempre aquele: "não tem importância; cedo ou tarde, isso passa." Bom, na verdade não. Certas coisas não passam. Elas mudam nossas vidas permanentemente, e a única coisa que o tempo fará é piorar a situação - ou dar uma solução indesejável.

Esse ano começou mal. A bruxa está solta. E a fim de maldade.

FELIZ ANO… NOVO?

2 January, 2007

E lá se vai mais um ano. Não deixa saudades. Até o final foi ruim. A festa familiar foi o mesmo de sempre: muita comida, as mesmas discussões, as mesmas piadas, quase a mesma gente. Só não é exatamente a mesma turma de sempre porque neste ano pintaram por aqui uns amigos da família que têm por principal característica uma incrível e fundamental chatice. Não que eles sejam chatos como aquela tia chata que chega na hora imprópria, só fala bobagem e te presenteou no Natal com uma gravata laranja com bolinhas roxas. Aquela sua tia é folclórica, pelo menos. Esses de quem eu falo são chatos profissionais. Mais chatos do que disco de pizza. Com recheio de chuchu.

E o ano que entra não promete grandes coisas. É por isso que eu faço como aquele mui sábio amigo e desejo a todos os que lêem estas linhas um 2007 razoavelmente tolerável. Mais do que isso, vocês sabem, é muito arriscado. Vai que a gente deseja demais e Deus, ou a estatística, acaba nos sacaneando…

POST NATALINO

23 December, 2006

E eis que chegamos a mais um Natal, época do ano que, pelos motivos religiosos conhecidos e desconhecidos, além de comerciais, as pessoas mandam mensagens cheias de desejos positivos, paz e esperança uns para os outros. Pregam a bondade, a felicidade, a alegria e todos esses bons conceitos que, fora desta época do ano, só aparecem nos discursos da ONU e nos livros de auto-ajuda.

Pessoalmente, não tenho nada contra essa data. Não há por quê passar o ano todo a desejar o mal a outras pessoas; deve-se amar a vida, nem que seja ao menos um dia por ano. Não quero dizer com isto que eu deseje a morte de algumas pessoas. Talvez alguns desmembramentos… hm, não, o desmembramento é mais cruel do que a morte. Ok, vá lá, eu desejo a morte de alguns.

Mas o ponto é: desejar isso é errado. E é claro que, se é verdade que quase todos nós desejamos mais a morte uns dos outros no nosso quotidiano (embora escondamos o fato sob camadas de boas maneiras), sabemos que é algo vergonhoso. Mesmo que muitos realmente mereçam o que lhes é desejado - seja por desonestidade, falta de caráter, burrice ou simples incompetência - todos nos persignamos por esses desejos maldosos, e utilizamos o 25 de dezembro para purgar nossas mentes culpadas dos maus pensamentos.

Afinal, esta é a época de Amor e Paz, não é? É o que todos, no fundo, sempre desejamos aos nossos semelhantes, não é? No fundo, no fundo, todos achamos que estamos certos e que fazemos o Bem, não é?

…não é?

Feliz Natal: http://www.youtube.com/watch?v=hlQkpRW-ZXA

GÊNIOS SÃO ETERNOS

10 December, 2006

Do dicionário Houaiss:

Kafkiano é o que, além de remeter à obra de Franz Kafka (1883-1924), evoca uma atmosfera de pesadelo, de absurdo, especialmente em um contexto burocrático que escapa a qualquer lógica ou racionalidade.

E ELE NUNCA CONHECEU O BRASIL!!!

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E por falar em Kafka: hoje matei uma barata no banheiro. Espero sinceramente que não seja uma parente de Gregor Samsa.

VISITA À ILHA DA FANTASIA

12 November, 2006

Bem, estou de volta. Não por muito tempo, já que viajo novamente no fim da semana. Mas pelo menos não vai ser para Atlântida Brasília, que não é uma cidade, e sim uma nave espacial anienígena disfarçada de Capital Federal de um país de Terceiro Mundo.

É sério. A cidade parece o continente perdido de Mu algo totalmente fora da realidade, ou um resto de cenário de filme B de ficção científica. E o pior é que os residentes parecem todos alienígenas. Eles vivem num mundo meio paralelo no qual a burocracia faz sentido, todo mundo tem carro (andar a pé naquele lugar é uma aventura de alto risco), discursos são quase realidade e o governo tem planos sérios e coerentes para os temas mais importantes da vida nacional.

Só pode ser ficção, mesmo.

BRASÍLIA DELIRA

2 November, 2006

É muito ruim quando você tem muita coisa a fazer no trabalho.

É pior quando tudo que você faz depende de gente que aparece raramente.

Fica terrível quando seu tempo diminui porque alguém em Brasília organizou um evento em que sua participação é obrigatória - e o evento é lá em Brasília.

E se torna tétrico quando você pergunta ao figurão que raramente aparece sobre o evento em Brasília e ele responde:

- Evento? Mas que evento???

Brasília não faz sentido.

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Para registro: alguns dizem que Gilberto Gil quer ficar no ministério e está lutando para isso; outros dizem que ele não quer, mas o Lula anda implorando para que fique. Em comum, todos concordam que o grande problema da história é o PMDB. A conferir*.

 

 

*Mas eu já não me assusto se o Ministério da Cultura for assumido por um peemedebista. Será péssimo se for o Sarney na quota de si mesmo, e bem menos ruim se for o Fernando Morais na quota do Quércia.

SOBRE O INDIVÍDUO

22 October, 2006

Muita gente tem problemas de identidade. Costumam tentar ser diferentes, seja lá o que isso signifique. Fazem um corte de cabelo estranho, pintam-no de verde, uma tatuagem, ouvem uma música esquisita, entram numa tribo urbana, viram blogueiros ou algo do tipo. E aí o problema se acentua, porque na medida em que se faz parte de uma tribo, um grupo qualquer, a individualidade pretendida tem de se acomodar às exigências do comportamento coletivo, e não raro o induvíduo acaba se anulando para se tornar um símbolo de si mesmo.

A alternativa a esse tipo de comportamento aparentemente "rebelde" tampouco é muito boa:  vive-se a vida pacata e segura do cidadão médio, não se preocupando em demasia com questões existenciais desse tipo. Apenas vive-se a vida, equilibrando a individualidade e a vida social naquele marasmo em que as vidas medíocres se afogam.

Tudo isso já foi dito, discutido e contestado milhões de vezes pelos melhores especialistas no assunto (e alguns dos piores também), como os psicólogos, os sociólogos, os antropólogos. Não há novidade alguma no dito acima, apenas um resumo pé-quebrado retirado de leituras parcialmente esquecidas.

Mas nunca vi uma análise profunda de caso como o meu, que não é único, mas é minoritário. Eu nunca tive dificuldade alguma em me considerar diferente; fi-lo sem esforço algum, mesmo porque, antes que me desse conta, outros se deram conta por mim. Daí por diante, as escolhas que fiz na vida podem até ter exacerbado um ou outro aspecto mais estranho, contribuindo ainda mais para um certo alheamento social. Por outro lado, levo uma vida quase que inteiramente normal e pacata, dentro da média de normalidade exigida pelos padrões sociais.

De tudo isso, minha conclusão é que ser diferente pode ser desejável, às vezes. Mas, em geral, é duro, difícil, amargo e socialmente mal visto. Especialmente se a sua individualidade é definida, em parte, por uma característica que nunca se quis ter, e que é odiável em si mesma.

Quando se pode escolher é mais fácil; mas a escolha deve ser feita com cuidado e critério, para que não haja arrependimento incurável posteriormente. Ainda assim, poder escolher é muito melhor do que não poder fazê-lo.

DESCULPA, FÁTIMA!

10 October, 2006

Passei a manhã de hoje elaborando um texto complicadíssimo no computador. Na hora em que achava que tinha terminado, minha chefe avisou que eu havia esquecido uma parte importante. Eu reabri o arquivo, escrevi o que faltava, salvei e deixei aberto na tela pra poder imprimir depois. E fui almoçar.

Quando voltei, a tela estava congelada. Não importava o que fizesse ao mouse, o texto continuava lá, e eu não conseguia imprimir, fechar, nada. Pensei: "Droga, deu pau. Beleza, CTRL+ALT+DEL, fecha tudo, abre de novo, imprime." Foi o que fiz. Só que o arquivo não estava lá. Tinha sido corrompido.

-Não é possível. Vou ter que escrever essa bosta de novo. Que merda de computador. Desculpa, Fátima.

[Fátima é uma senhora que trabalha no meu setor e, até o dia de hoje, me achava o cara mais educado do trabalho.]

Lá fui eu escrever o texto de novo, de memória porque não tinha conseguido imprimir. Até fiquei meio preocupado porque o cursor estava meio lento, o que sugeria mais problemas nesse novo arquivo, mas eu já estava no finzinho, e nada mais poderia aconte…

-Hein?! "Memória cheia. Salve este arquivo em outro dispositivo imediatamente."??? Mas que porra é essa? Isso é só um arquivo de Word, não um caralho de uma imagem! Desculpa, Fátima. Eu não vou perder esse troço, não quero escrever tudo pela…

…terceira vez, claro. Evidentemente, perdi o segundo arquivo também. Àquelas alturas eu já tinha perdido a compostura, a elegância e o bom senso:

-Computador dos infernos, salva essa merda! Desculpa, Fátima. Vai pra putaquiopariu, arquivo da porra! Desculpa, Fátima, mas você entende que eu não agüento mais escrever essa bosta de texto, desculpa aliás, mas porra (desculpa), não há Cristo que agüente escrever tudo de novo pela terceira vez, e eu juro que se esse filhodaputa desse computador desculpa Fátima me fizer perder esse arquivo maldito mais uma vez eu não escrevo mais bosta nenhuma desculpa Fátima hoje até o fim do expediente, vamos computador da porra desculpa Fátima, salva esse caralho desculpa Fátima eu não quero perder o tr… NNNÃÃÃOOO!!!

TUM! Arf arf arf… [barulho da minha cabeça batendo na mesa ao perceber que havia perdido o arquivo mais uma vez, combinado com suspiros profundos para evitar crise de choro histérico]

A essa altura já havia um monte de gente à minha volta - minha chefe, a Fátima, outra moça que trabalha no setor - todas com um olhar de pena e palavras de estímulo e conforto, do  tipo:

-Calma, não fica assim… não chora… o computador daqui é assim mesmo… amanhã você tenta de novo… se bem que perder o mesmo arquivo três vezes… cadê o cara da informática?

************

No fim do expediente, uma arquiteta de outro setor veio se despedir de mim:

-Tchau André, até amanh… ué, o que é isso verde no seu cabelo? [pega folhinha]

-O que, isso? [disse eu, retirando o ramo de arruda de trás da orelha]

Ela começou a gargalhar.

-Ou isso? [disse eu, com a mesma expressão fleumática, apontando para outro ramo de arruda colocado sobre o monitor]

Ela ficou roxa de falta de ar de tanto rir.

-Ou talvez isso? [disse eu, levantando uma pilha de papéis sobre a CPU e revelando outro ramo de arruda todo amassado]

Ela saiu de lá tendo espasmos e se contorcendo de tanto rir.

Mas foi assim que eu consegui fazer com que o filho de uma égua malparida do computador do trabalho  imprimisse a bosta do arquivo.

Desculpa, Fátima.

COERÊNCIA?

10 September, 2006

Primeiro foi a Heloísa Helena, que no debate, ao defender a Reforma Agrária, ressalvou que ia "proteger o agronegócio".

Depois foi o dono do Banco Itaú, Olavo Setúbal, ex-ministro da Ditadura Militar e financiador da Oban, que disse que tanto fazia Lula quanto Alckmin na Presidência, já que "ambos são conservadores".

‘Inda outro dia, o próprio Alckmin disse que não só nada tinha a ver com a Opus Dei ha ha como também era favorável ao casamento gay até parece.

Agora é a vez do Estadão, bastião do conservadorismo tupiniquim de polainas, que escreve neste domingo um Editorial tão contrário  a George W. Bush que bem poderia estar na Caros Amigos.

Noves fora o banqueiro, que tem lá sua dose de razão, minha impressão é que a coerência política, neste Brasilzão de meu deus, foi atirada pela mesma janela em que tinha sido antes projetada a decência.

TRÊS ECONOMISTAS: O IGNORANTE, O IDIOTA E O MALVADO

27 August, 2006

Um dos propósitos deste blog, que aliás tem o nome de um jornal, é comentar as notícias que eu leio pelos periódicos por aí (ler jornais e revistas é meu terceiro esporte predileto, depois de judô e halterocopismo, nessa ordem). Muito bem. Comentarei brevemente três notícias que li na Bolha de S. Paulo de ontem (ia linká-las, mas só o Eric deus sabe como se faz isso).

 

O ECONOMISTA IGNORANTE

Falando sobre Educação, nosso querido presidente Lulinha Paz y Amor disse algo do tipo: "eu nunca tirei um diploma, mas não pensem que eu não quis estudar. Eu queria ser economista". Vejam bem, ele queria ser economista. Isso explica muita coisa…

 

O ECONOMISTA IDIOTA

Não que eu fosse votar nele, mas se antes havia alguma chance de, em eventual segundo turno contra um nefasto qualquer, eu tapar o nariz e lhe sufragar, agora não há mais. Aloízio Mercadante, senador por São Paulo (em quem votei nas últimas eleições, aliás), perdeu definitivamente qualquer voto meu no momento em que desceu a lenha nas leis de proteção ao Meio Ambiente. A lógica do senador é aquela velha: "as leis ambientais são rígidas demais, o licenciamento ambiental é muito lento e isso atrapalha o desenvolvimento do País, blá blá blá". É mumunha. O licenciamento ambiental, quando bem feito, já não protege grandes coisas. Quando entra pressão política pra "apressar o desenvolvimento", é fatal: sempre rola aquela megamastermerda que nunca é publicada no jornal - só depois que o dano já é irreversível. Por exemplo, todo mundo fala da hidroelétrica de Tucuruí, que foi feita tão nas coxas que nem chegaram a desmatar a área que foi alagada. Resultado: hoje a decomposição das árvores (e era uma área imensa, com uma floresta de quilometros) joga uma quantidade inacreditável de CO2 na atmosfera - sem falar nos animais que morreram afogados etc. O que ninguém sabe é que a mesmíssima coisa aconteceu em 2001, quando houve pressão d’el-rei Fernando Henrique II pela inauguração emergencial de outras hidroelétricas por causa do apagão. A gigantesca Usina Hidroelétrica Luís Eduardo Magalhães, no Tocantins, bem poderia se chamar Tucuruí II, A Missão. E agora me vem a anta do Mercadante defender a mesma coisa! (Pensando bem, faz sentido: olho no jornal, minha gente. Quando vocês virem alguma notícia dizendo que "a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil e/ou o ministro Silas Rondeau, das Minas e Energia, pressionaram pela liberação da Usina Belo Monte", tremam. Vem aí mais cagada. E desta vez, no meio da Amazônia.)

 

O ECONOMISTA MALVADO

Ele é malvado. Ele é realmente malvado. Genial, brilhante, inteligentíssimo. Mas do mal. Uma Mente a Serviço do Mal, como se dizia de vilões de HQs antigas, como o Doutor Silvana. E aquela cara de Jabba the Hutt não engana. Estou falando, obviamente, de Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda, Planejamento e sabe lá mais quê da Ditadura Militar e, agora, o maior conselheiro econômico do presidente esquerdista (???) Lula. Ontem mesmo, em entrevista, reafirmou sua condição de ministro-sem-pasta ao defender a política econômica palocciana-lulesca, passar um sutil recado ao Banco Central e defender a idéia do déficit nominal zero - a patranha mais recente que sua mente maquiavélica bolou, e que Lula seguramente adotará no segundo mandato, segundo o próprio Delfim. Teoricamente, a idéia é boa: as contas do governo, excluído o superávit primário, todo ano fecham no vermelho; Delfim defende um ajuste fiscal que iguale receitas e despesas. O problema dessa omelete são os ovos a serem quebrados. Delfim defende fervorosamente o fim da "vinculação orçamentária". Em português simples, a lei exige que uma parte do orçamento seja obrigatoriamente destinada a certos fins, sem choro nem vela. O Gordo (ou, como dizem alguns malvados, a Gorda) defende que isso acabe para que o governo possa usar o dinheiro livremente, poupando-o se quiser. Legal? Nem tanto. Os "certos fins" a que a lei obriga que se gaste são Saúde e Educação. Com a vinculação, a Saúde e a Educação brasileiras já são isso aí que se sabe. Imaginem se a vinculação acabar…

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